
No meio da escuridão da meia noite, o eco do estalar de um galho desperta o medo dos insetos no chão e os faz correr para as sombras; exceto um: que em vez de correr Para as sombras das árvores estava nas nuvens na cabeça de um cara. Nessa noite nada silenciosa se ouve a respiração ofegante de um animal que parecia que o mundo havia acabado, ou melhor, aquele dia maçante. Com suas patas tão calejadas que nem sentem, mas o frio nem a fome de um dia vazio, vai trotando pelo chão e se escorando aonde pode. Seus pulmões se enchem de ar e se esvaziam na mesma velocidade que suas costelas aparecem.Nessa atmosfera ultraromantista, o Cara caminhava para seu habitat bêbado, não se sabe se é de fadiga ou de cachaça. Caminhava, apenas, se diferenciando assim de sua raça e do inseto em sua cabeça. O inseto notou aquele corpo estranho estava úmido e também reconheceu o cheiro: havia estado no mesmo lugar às 4h daquele dia. Entretanto o ‘ar’ estava diferente. De manhã aquele vírus estava feliz, a madrugada nunca esteve tão linda como aquela, pois, na noite anterior, o Cara pode alimentar seu bando.
Ah, o nascer do sol daquela 4h... Um sol que nascia escaldante para penetrar e queimara a pele, alucinando e desidratando. Sol fervente que alimenta o cara... E enquanto o fazia, o cara ia andando para seu destino, seu trabalho, podendo economizar algumas caras ou tartarugas marinhas. Aquele corpo andava feliz naquela aurora, até porque nas três conduções que pegou para chegar ao trabalho, ele conseguia se mexer um pouco. E o trânsito, estava livre (...) às 9h o Cara, o vírus viajante chega ao trabalho imaginando um dia perfeito. Foi o primeiro, e talvez o único, raciocínio do cara. Eu, inseto, agradeço. Bons tempos foram aqueles, aquela velha madrugada. O Cara raciocinando e, eu inseto, preso em seu corpo. Sei que posso ser mais do que isso, apesar da rotina do cara não deixar. Mas esse dia foi previsto como perfeito, uma rotina diferente. Foi um erro.Às doze horas de trabalho do cara nunca foram tão longas quanto hoje. Talvez o relógio seja tão analfabeto quanto o cara e não saiba contar as horas.
Muitas horas de trabalho, nenhuma ração no almoço... Esse cara se deu bem hoje, afinal só trabalho doze horas! Esse verme não reclama do seu trabalho, sempre agradeceu pois seu trabalho de quebrar pedras não exige muito esforço, apenas físico... e eu, implorando por um esforço...mas em nenhum momento o cara me deixa atuar, então deixemos todo o esforço com ele. Me lembro como se fosse agora que às 21h do dia perfeito, da aurora e da atmosfera ultraromantista, o cara voltava para casa andando com seu raro salário em mãos. De repente, um homem encapuzado e de altura mediana e largura nem tanto veio em direção a mim, quer dizer, ao cara. Era um outro cara que apenas utilizava seu esforço físico.Parecia estar com frio ou drogado. Ou até mesmo os dois. Só eu mesmo, um inseto, para questionar o motivo da tremedeira. Sei que este outro cara pediu um “verde” emprestado. O cara, muito generoso, deu 1/3 de seu dinheiro. Não que ele saiba o que é 1/3, apenas porque dar uma nota entre três é mais fácil do que pedir ajuda a um inseto. Lá se foi, assim, uma cara, o Juscelino Kubstchek ou o Banco Central. Um deles. Mas para o cara não importa.
Deprimido e com fome, num dia perfeito, o cara resolveu melhorar seu humor, a branquinha, amiga de todo minuto num bar na esquina. Uma cachaça nunca descera tão bem. A garganta do cara não sentia algo líquido nem sólido há muito tempo. Foi um alívio para a garganta, para o cara e para mim, inseto, que neste momento, relaxei. No meu momento de embriaguez deixei que o cara entregasse mais uma nota pelo ombro amigo e mais tarde outra para chegar ao seu habitat.
Então, aqui estamos nós outra vez. Eu voltando a mim nesse caminho sombrio. Só ainda não consigo explicar porque o cara está úmido, pois fiquei fora por um tempo, desde a cachaça.Sem dinheiro, úmido e com fome, talvez hoje tenha sido o dia perfeito mesmo. E o que tornava mais incrível era o fato de sua mulher e filhos estarem aguardando por ele.
Chegando em sua toca, anestesiado, o cara tenta dar a amor para sua mulher e assim aumentar a população mundial. Infelizmente, a ninhada de nove filhos os impediu reclamando de fome, do irmão, do brinquedo que não ganhou, da ignorância. Não, essa última reclamação foi minha. Enfim, reclamavam de tudo. O objetivo era atormentar o cara que chegou em casa cansado, que tem fome e que não tem certeza se está na casa certa.
O cara sempre paciente e bondoso atua politicamente fazendo promessas e impondo leis, nada ditatorial, me surpreendendo até, pois inconscientemente, o cara faz o que eu, inseto, faria. Certo que resolveu os problemas infantis virou-se para sua fêmea, entretanto, a face dela não era das mais saudosas. O cara não percebeu a diferença, sabia que ela não era nenhuma Afrodite.Seu rosto perdeu toda a parte terna e apaixonante que um dia tomou conta daquela pessoa. E, naquela noite, a penumbra que a envelhece fez com que todos sentissem a amargura na sua alma. Seu corpo gestante e acabado sente saudade de sua antiga forma voluptuosa. E aqueles cabelos...lindos, para o alto, sem ver xampu há dias. Essa era a face da mulher do cara que docemente pergunta pelo dinheiro. Logo após o cara contar a história ele se vê no chão com cacos de vidro em sua cabeça e nem sabia como foi parar lá. Sua mulher havia jogado um copo de vidro na cabeça do cara e começou a bater nele. O cara entendia aquela ação, mas não concordava. A sua empatia pelas pessoas e ingenuidade deixavam que os outros o tratassem assim, e o cara estava acostumado.Após aquele dia perfeito o cara foi dormir na calçada e quando sóbrio percebeu a fome. Não comia há dois dias e teve um dia cansativo no trabalho, mas agora foi dormir. E eu tentei ajudá-lo o dia inteiro...Eu, um inseto, uma mera consciência tentei ajudar o cara a não ser chamado de cara. Tentei fazê-lo ver a aptidão de sua vida. Eu, um mero inseto... o cara uma mera ignorância.