sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Pecado

Invejo tua tristeza

Teu nome

Teu clamor

E seu amor


Invejo tua agonia

Sua alegria

Até sua poesia


Invejo sua ação

seu coração

e tua decepção


Invejo tua alma

Que os outros acalma

Invejo teu desamor

E tua dor

Invejo tu, pessoa

Como qualquer outra


Invejo tua vida

Invejo tua morte

Tua alma sem sorte

Invejo teu pudor

E seu rancor

Que tem do meu invejar


Invejo, tu, meu pecado

Porque apenas invejando

Que eu posso te amar

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Lembranças de um inseto



No meio da escuridão da meia noite, o eco do estalar de um galho desperta o medo dos insetos no chão e os faz correr para as sombras; exceto um: que em vez de correr Para as sombras das árvores estava nas nuvens na cabeça de um cara. Nessa noite nada silenciosa se ouve a respiração ofegante de um animal que parecia que o mundo havia acabado, ou melhor, aquele dia maçante. Com suas patas tão calejadas que nem sentem, mas o frio nem a fome de um dia vazio, vai trotando pelo chão e se escorando aonde pode. Seus pulmões se enchem de ar e se esvaziam na mesma velocidade que suas costelas aparecem.Nessa atmosfera ultraromantista, o Cara caminhava para seu habitat bêbado, não se sabe se é de fadiga ou de cachaça. Caminhava, apenas, se diferenciando assim de sua raça e do inseto em sua cabeça. O inseto notou aquele corpo estranho estava úmido e também reconheceu o cheiro: havia estado no mesmo lugar às 4h daquele dia. Entretanto o ‘ar’ estava diferente. De manhã aquele vírus estava feliz, a madrugada nunca esteve tão linda como aquela, pois, na noite anterior, o Cara pode alimentar seu bando.



Ah, o nascer do sol daquela 4h... Um sol que nascia escaldante para penetrar e queimara a pele, alucinando e desidratando. Sol fervente que alimenta o cara... E enquanto o fazia, o cara ia andando para seu destino, seu trabalho, podendo economizar algumas caras ou tartarugas marinhas. Aquele corpo andava feliz naquela aurora, até porque nas três conduções que pegou para chegar ao trabalho, ele conseguia se mexer um pouco. E o trânsito, estava livre (...) às 9h o Cara, o vírus viajante chega ao trabalho imaginando um dia perfeito. Foi o primeiro, e talvez o único, raciocínio do cara. Eu, inseto, agradeço. Bons tempos foram aqueles, aquela velha madrugada. O Cara raciocinando e, eu inseto, preso em seu corpo. Sei que posso ser mais do que isso, apesar da rotina do cara não deixar. Mas esse dia foi previsto como perfeito, uma rotina diferente. Foi um erro.Às doze horas de trabalho do cara nunca foram tão longas quanto hoje. Talvez o relógio seja tão analfabeto quanto o cara e não saiba contar as horas.



Muitas horas de trabalho, nenhuma ração no almoço... Esse cara se deu bem hoje, afinal só trabalho doze horas! Esse verme não reclama do seu trabalho, sempre agradeceu pois seu trabalho de quebrar pedras não exige muito esforço, apenas físico... e eu, implorando por um esforço...mas em nenhum momento o cara me deixa atuar, então deixemos todo o esforço com ele. Me lembro como se fosse agora que às 21h do dia perfeito, da aurora e da atmosfera ultraromantista, o cara voltava para casa andando com seu raro salário em mãos. De repente, um homem encapuzado e de altura mediana e largura nem tanto veio em direção a mim, quer dizer, ao cara. Era um outro cara que apenas utilizava seu esforço físico.Parecia estar com frio ou drogado. Ou até mesmo os dois. Só eu mesmo, um inseto, para questionar o motivo da tremedeira. Sei que este outro cara pediu um “verde” emprestado. O cara, muito generoso, deu 1/3 de seu dinheiro. Não que ele saiba o que é 1/3, apenas porque dar uma nota entre três é mais fácil do que pedir ajuda a um inseto. Lá se foi, assim, uma cara, o Juscelino Kubstchek ou o Banco Central. Um deles. Mas para o cara não importa.



Deprimido e com fome, num dia perfeito, o cara resolveu melhorar seu humor, a branquinha, amiga de todo minuto num bar na esquina. Uma cachaça nunca descera tão bem. A garganta do cara não sentia algo líquido nem sólido há muito tempo. Foi um alívio para a garganta, para o cara e para mim, inseto, que neste momento, relaxei. No meu momento de embriaguez deixei que o cara entregasse mais uma nota pelo ombro amigo e mais tarde outra para chegar ao seu habitat.
Então, aqui estamos nós outra vez. Eu voltando a mim nesse caminho sombrio. Só ainda não consigo explicar porque o cara está úmido, pois fiquei fora por um tempo, desde a cachaça.Sem dinheiro, úmido e com fome, talvez hoje tenha sido o dia perfeito mesmo. E o que tornava mais incrível era o fato de sua mulher e filhos estarem aguardando por ele.



Chegando em sua toca, anestesiado, o cara tenta dar a amor para sua mulher e assim aumentar a população mundial. Infelizmente, a ninhada de nove filhos os impediu reclamando de fome, do irmão, do brinquedo que não ganhou, da ignorância. Não, essa última reclamação foi minha. Enfim, reclamavam de tudo. O objetivo era atormentar o cara que chegou em casa cansado, que tem fome e que não tem certeza se está na casa certa.



O cara sempre paciente e bondoso atua politicamente fazendo promessas e impondo leis, nada ditatorial, me surpreendendo até, pois inconscientemente, o cara faz o que eu, inseto, faria. Certo que resolveu os problemas infantis virou-se para sua fêmea, entretanto, a face dela não era das mais saudosas. O cara não percebeu a diferença, sabia que ela não era nenhuma Afrodite.Seu rosto perdeu toda a parte terna e apaixonante que um dia tomou conta daquela pessoa. E, naquela noite, a penumbra que a envelhece fez com que todos sentissem a amargura na sua alma. Seu corpo gestante e acabado sente saudade de sua antiga forma voluptuosa. E aqueles cabelos...lindos, para o alto, sem ver xampu há dias. Essa era a face da mulher do cara que docemente pergunta pelo dinheiro. Logo após o cara contar a história ele se vê no chão com cacos de vidro em sua cabeça e nem sabia como foi parar lá. Sua mulher havia jogado um copo de vidro na cabeça do cara e começou a bater nele. O cara entendia aquela ação, mas não concordava. A sua empatia pelas pessoas e ingenuidade deixavam que os outros o tratassem assim, e o cara estava acostumado.Após aquele dia perfeito o cara foi dormir na calçada e quando sóbrio percebeu a fome. Não comia há dois dias e teve um dia cansativo no trabalho, mas agora foi dormir. E eu tentei ajudá-lo o dia inteiro...Eu, um inseto, uma mera consciência tentei ajudar o cara a não ser chamado de cara. Tentei fazê-lo ver a aptidão de sua vida. Eu, um mero inseto... o cara uma mera ignorância.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A borboleta e a lágrima


Brilhosa, tímida e única. Seu tempo de vida é tão longo quanto de uma borboleta... Entretanto sua beleza não se compara a supremacia de nenhum inseto. (então, serei breve). Sua beleza física é transparente, límpida como a água normal, simples e exuberante. Sua temperatura conforta e seu gosto salga, aguçando assim toda a alma e destruindo os sentidos da razão. Sua forma arredondada como o orvalho caindo de uma planta nos lembra o quão rápida é sua trajetória, e como orvalho, ela se evapora. Assim ela nasce, cresce e morre. Rápido. Mas não tão rápido quanto a vida do sentimento que ela traz consigo.

Mas não pense que o que a torna bela é apenas sua voluptuosidade. Seu silêncio majestoso e todos os segredos que guarda escondidos em algum lugar daquela gota d’água. Tudo que ouve, cala-se, pois sua divindade consiste em seu mistério da criação, em ela apenas ser. E a nós cabe, tentarmos compreendê-la.

Pequenina e minuciosa deixa seu rastro até seu fim aonde o silêncio aprisionado pode ocasionar resultados inesperados e apocalípticos, tal como a teoria do caos e o bater das asas de uma borboleta. (de novo!)

Seu rastro, sua marca, sua história nos deixa penalizados, estáticos e pensativos. Talvez porque queiramos entender aquela língua enquanto ela, majestosamente, nos chame de bárbaros por não compreendê-la.

Seu desabafo seja de amor ou de raiva, de perda e de saudade, de felicidade ou culpa, não tem palavras... Apenas ela como representante daquele breve e imprescindível momento. Talvez sejamos mesmo bárbaros pela frieza da descrição com que faço. Tentando descrever em palavras concretas um gesto abstrato e o mais verdadeiro de todos.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Como uma brisa


Eu estava em um lugar comum em um dia comum, quando você passou deixando apenas seu perfume para trás. A brisa tocou levemente os meus cabelos, desarrumando delicadamente cada fio. O vento vazio chegou frio na minha face acariciando as maças do rosto e me fazendo delirar. Não havia corrente de ar, mas foi só você passar e deixar seu rastro.

Você não me viu, apenas a sua brisa. Ela sim falou comigo. Mesmo assim, o vento estava gelado, porque veio vazio, sem amor, sem paixão. Veio triste e rápido, mas eu consegui pegar um pouco para guardar. Guardei o vento como guardaria um segredo. Escondi onde só eu pudesse lembrar onde guardei e recordar este momento.

Foi um vento. Um ar de esperança. Um sopro. Uma brisa quente agora que me enlaçou em seus braços e me esquentou. O vento foi sentido em cada parte do meu corpo. Nas pernas o arrepio foi sentido com dor, por não ter tido coragem de caminhar até seu corpo. Culpo-as até agora pela falta de valentia. Senti o calor da paixão quando percebi que poderia ter enrubecido o rosto. Por isso, olhei para baixo. Você não deve ter notado. Foi ai que percebi que o perfume ficou. O calor desta vez tomou conta do meu corpo. Como se estivesse febril senti o corpo suar por aquele resto de você ter ficado no ar. Mas você foi.

Pensei até que não voltaria mais. Fiquei desejando ouvir passos desajeitados, ouvir uma voz ou sussurro do vento, sentir você ajeitando o cabelo. Esperei pelo seu vento.

E ele voltou. Voltou agora para deixar sua essência e fazer companhia a minha alma antes só. Ela que estava guardada há tanto tempo. A sua brisa desta vez veio como um furacão que desenterrou todo o meu ser que estava tentando se esconder. Voltou mas novamente sem me perceber. E me pergunto até que ponto minha alma é tola por querer continuar sentindo este vento. O vento que resfria e me deixa doente. Que me distrai e me faz parar de pensar em tudo que pensei que era importante. Foi aí que percebi que apenas sua brisa importava. Nem que fosse só sua brisa. Mas um amor não sobrevive de sopros. Muito menos uma paixão. O vento quando muito gelado corta o rosto e resseca a pele, desfazendo tudo aquilo que foi construído. Machuca e desgasta, mas não destrói. Vento maldito.

Precisaria de um incêndio perto de mim para tirar todo o ar do local e quem sabe tiraria o meu também. Precisaria quem sabe de um vento vindo de outra região para que meu cabelo voasse para outro lado.

Mas por enquanto está calor e gosto de sentir sua brisa. Só espero que ninguém feche a janela ou a porta.

Sonhos

Dorme neném
Que a sede não vem
A sede de crescer
E dessa vida sobreviver
Dorme
Enquanto tua mãe trabalha
E te deixa queimar
Enquanto o fogo se espalha
Dorme para não perceber
Que o teu maior erro, foi nascer

Dorme criança
Pois que no teu sono
Da fome não se tem lembrança
Dorme
Para que possa sonhar
E a esta vida
Um sentido dar
E uma mensagem levar
Criança, esperança!
Espere que um dia poderás ser criança

Dorme para descansar
Depois que teve que mendigar
E talvez,
A Cinderela venha te visitar
Dorme cara
Porque tu não sabes ler
Porque saiu da escola
Sem ao menos seu nome escrever

Dorme irmão
Que amanhã é dia de vender para poder lucrar
E fazer viajar
Uma realidade que faz desesperar

Dorme piranha
Que a noite é uma criança
Que você nunca vai ser
Dorme que você não vê
O seu corpo você vender

Dorme que o sono cura
Aquela maldita dor que dura
Dorme, mas não dorme muito não
Porque você vai ter que levantar desse chão
Chão frio que é dividido
Por muitos animais perdidos
E levanta para a realidade
Porque tu, grande
Vai ter que viver na maldade
E soca o teu desconhecido
Porque ele não conhece seu perigo

Dorme nessa escuridão
Dorme como cadáver no chão
Dorme nesta selva
Onde os bichos caçam a noite

Dorme para não caçar
Dorme para não ser caçado
Dorme para nunca mais acordar